terça-feira, 20 de janeiro de 2026

"S. João do Campo", por Camacho Pereira (1935)

 


Em Julho de 1935, a Revista Latina - uma revista de turismo com publicação no Porto - dedicava o seu n.º 4 à Serra do Gerês.

Entre vários artigos, continha um texto sobre a aldeia do Campo do Gerês (S. João do Campo) da autoria do jornalista Camacho Pereira que aqui transcrevo na sua íntegra (sobre a verdadeira designação da aldeia, aconselho a leitura atenta do livro “Estudo Histórico-Cultural das Freguesias de Campo do Gerês, Carvalheira e Covide”, de António José Ferreira Afonso, para não se comentar e julgar sem saber. A ler aprende-se muito...

Na transcrição do texto a seguir é mantida a grafia original. 

S. João do Campo

S. Joãao do Campo, Vilarinho das Furna e e Covide são as três povoações gerezianas por excelência, pois as termas muito embora estejam no Gerez são umas termas...

Tínhamos já esquadrinhado a Serra por todos os lados, no tocante a aspectos panorâmicos e dificuldades a vencer; restava-nos por fazer o passeio mais fácil, mas que não deixa de ser, por isso menos interessante.

Se lhe faltam os grandiosos aspectos de conjunto que só se apercebem das alturas, tem em compensação o detalhe bucólico e o floklore.

EStava ainda acesa a chama da curiosidade, custav-nos no entanto fazer essa volta na única companhia do guia.

No passeio de Braga ao Gerez encontrámos o amável Delàge da Empresa Hoteleira e a paciência do seu Gerente para nos trazer paulatinamente, com paragens para o Carlos desenhar e para as minhas anotações.

Na Serra tive o Carlos, para a Calcedónia tendo lançado o João à procura de um companheiro, tive a felicidade de encontrar um à altura; caçador e transmontano o Capitão Guilherme foi um bom elemento e um bom amigo.

Mas agora que a época estava quási a terminar! nos hoteis não havia viva alma! os dias passavam-se no bilhar ou no Ping-Pong, onde iriamos desencantar um parceiro para uma estafadela como diziam?

Havia um, havia; mas todos me tiravam da cabeça pois não conseguiria convencê-lo; e no entanto catequisei-o.

Uma bela manhã o Plymouth do Gaspar (um dos proprietários da Empreza) parou em frente ao Hotel do Parque e com grande espanto, todos souberam que o Gaspar ia dar uma volta a pé pela Serra!

Depois da indispensável merenda, varapausm espingarda (pois levou o passeio a título de caçada) e guia terem sido embarcados, aí vamos, de escape aberto, Vale do Gerez acima.

As arcarias, o Parque Tude de Sousa e a Preguiça sobrepuzeram-se instantaneamente, tal a velocidade (Gaspar é corredor) e as curvas de gancho subindo a vinte graus eram vencidas como se fossem a mais suave e plana estrada, embora a alavanca das velocidades tenha dançado um shimmy.

Mas, helas! eu queria ver.

Por isso fizemos uma paragem a certa altura, serviu para tirar a fotografia que ilustra a capa dêste número e cuja descrição se encontra feita noutros artigos.

Depois de me encher daquela grandiosidade de proporções, vegetações e luzes, continuamos a correria através as rampas e as curvas mais que bizarras e mais que perigosas da estrada de Leonte, até ao acabar junto à casamata do mesmo nome que serviu de hotel a Artur Loureiro e onde findou os seus dias.

Devido à amabilidade do Sr. Silva (Salão Silva Porto) obtivemos as reproduções dos três quadros que em separado demos aos nossos leitores.

O Plymouth levou-nos os olhos ao retroceder descendo para o Gerez enquanto nós descemos o Vale de Albergaria através a densíssima mata de Carvalhos que constitui um oasis desta flora nesta região.

O gaspar foi pescando trutas a tiro à falta de melhor e recordei-me de uma ingleza que encontrara en tempos em Braga que vinha de Londres ao Gerez de propósito para vêr uma Pêga, levada a isso pelo livro do Sr. Tait.



No fim do Vale de Albergariam contornamos no sopé os cabeços da Bargiela, avançada do Pé de Cabril e entramos no Vale do Homem, tomando a antiga Geira Romana de grandes lages, encontramos grandes depósitos de marcos miliários, um dos quais damos em gravuira, e avançamos por êste amplo vale tendo à esquerda as cumiadas do Cabril e à direita as vertentes da Serra Amarela onde de tempos a tempos se descortinavam longinquamente caçadores e se ouviam tiros de vez em quando, até atingier S. João do Campo, povoação sertaneja e pobre cercada pelas únicas planícies da serra que dão pão e milho.

Tem S. João do Campo uma cousa muito interessante; a sua praça ou o seu adro, o seu Forum.

Um vasto campo ostenta com ar de parada mais de uma dúzia de espigueiros, todos muito bem tratados, pintados e caiados encimados por cruzes conforma mostra a nossa gravura.



Suponho não haver prova mais eloquente do bom acato à legislação comunal própria que adoptaram, bem como do seu espírito religioso.

Ao deixar S. João do Campo sobe-se o dorso da montanha, atingindo a aresta à vista de Calcedónia (...) e como para baixo todos os santos ajudam, depressa chegamos às termas ainda com dia e sem grande canseira. 

Fotografias: Camacho Pereira

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