quinta-feira, 5 de junho de 2014

Jovens e Tradição, um paradoxo ou uma questão de aplicação?


Como os leitores do blogue sabem, este é também um espaço onde defendo as minhas causas e por vezes publico temas que não estão relacionados com o tema principal do blogue.

A propósito da polémica 'Corrida do Porco Preto', recebi uma carta por parte do Presidente da Associação de Estudantes da Escola Secundária Carlos Amarante, que aqui reproduzo na íntegra.

Foi-me gratificante ler estas linhas porque vinda de um jovem, faz sempre renascer a esperança que o futuro posa ser menos sombrio para todos os habitantes deste planeta...


Carta Aberta do Presidente da Associação de Estudantes da Escola Secundária Carlos Amarante

Jovens e Tradição, um paradoxo ou uma questão de aplicação?


Escrevo este artigo enquanto jovem de hoje e cidadão preocupado com o rumo que a minha cidade pode levar. Assumo ainda uma posição de representante de uma associação juvenil, razão pela qual a salvaguarda do legado que se deixa aos adultos de amanhã é, a meu ver, imperial.

Penso que é unânime o sentimento que todos nutrem por uma Braga melhor, um país melhor, um futuro melhor. E, é no pensamento e na lógica de que grandes mudanças começam com pequenos passos, que se enquadra o tema que abordado neste artigo de opinião, a revolta contra a realização da “corrida do porco preto” nas festividades do S. João de Braga.

Situando temporalmente, este é um evento que já não ocorre desde 1916, ou seja, há cerca de um século. Historicamente, é também fácil depreender que o panorama social, desde costumes a ideologias, vivido na altura era completamente distinto do atual. Portanto, qual a razão que leva a uma reposição desta corrida?

Os responsáveis pelo evento, entre os quais o Dr. Rui Ferreira, afirmam que é uma forma de trazer à comemoração deste feriado uma componente simbólica e tradicional da cidade de Braga. Mas, fará este argumento algum sentido?!

Como é do conhecimento geral, nas últimas décadas, tem-se dado em Portugal e , consequentemente na nossa região, um aumento exponencial do número de cidadãos com acesso à Educação. Com isto podemos hoje afirmar que temos um país muito mais instruído que em 1916 (aquela data referente à última realização desta corrida), através de uma Escola, que para além de competências específicas, serve para formar adultos responsáveis, cultivando neles valores como o respeito, a honestidade, a dignidade. E, agora pergunte-se: qual destes valores, que parte desta evolução está retratada num evento que tem como base a humilhação de um ser vivo, um animal?

Nenhum. É incoerente que numa altura em que milhares de famílias cortam o seu orçamento em dezenas de aspetos, nunca o aplicando ao que toca à educação dos seus filhos, nós, jovens, tenhamos de deparar na nossa cidade com evento cruéis e sem fundamento como este. Fomos educados a respeitar tudo e todos, a aceitar e a promover a diferença. Contudo, os responsáveis máximos pela nossa cidade oferecem-nos, em vez bons exemplos (como maior acesso à cultura para jovens ou espetáculos que promovam valores nobres), atos desrespeitosos para com um animal, justificando-o com o simples argumento de que se trata de uma tradição.

De más tradições está a História humana marcada e se há algo que diferencia o Homem dos restantes animais é a sua capacidade de agir e não apenas reagir, de aprender com os erros do passado em ordem a não cometê-los de novo no futuro. E, retomando o título, nós, Jovens, somos a favor da retoma de tradições exemplares, tradições que não tenham como objetivo denegrir o próximo, contudo, não contem connosco para voltar a cometer erros que já levaram a nossa sociedade a climas abismais, como a falta de respeito perante outro ser vivo. Porque nós somos o futuro, porque nós somos a próxima geração, chegou o tempo de dizer basta a certas chamadas tradições, para que nasça um novo mundo onde a felicidade seja alcançável para todos sem que exista a necessidade de desonrar algo ou alguém!


Bruno Gonçalves, Presidente da Associação de Estudantes da ESCA

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