Hoje de manhã fiquei espantado por ver uma temperatura de 23,1.ºC a ser registada pela Estação Meteorológica Experimental dos Carris (EMEC).
Os dias têm sido quentes, especialmente no período da tarde, mas pensava que a noite traria uma baixa acentuada na temperatura, aliás, tal como se nota em altitude mais baixas (no Campo do Gerês, por exemplo, onde o princípio da noite é relativamente quente, mas a manhã traz um ar mais fresco).
Assim, questionei o Carlos Araújo sobre este «fenómeno». O Carlos Araújo foi o principal responsável pela instalação da EMEC e ela explica o porquê desta situação.
Nas palavras do Carlos, "o gráfico semanal é absolutamente esclarecedor e confirma que a estação meteorológica está a funcionar na perfeição, documentando uma reviravolta radical no estado do tempo. O comportamento das linhas ao longo da última semana desenha o cenário meteorológico ideal para justificar o que está a acontecer nos pontos mais elevados da Serra do Gerês.
Assim, no início da semana, as temperaturas máximas andavam mais baixas (perto dos 15 °C a 17 °C) e as mínimas desceram bem até aos 9,5 °C no dia 31 de Agosto. Isto é o comportamento típico e expectável para os 1.500 metros de altitude nesta época do ano.
A partir do dia 2, a curva amarela faz uma subida contínua e acentuada. O topo da serra deixou de arrefecer durante a noite (as mínimas nocturnas subiram mais de 10 °C em relação ao início da semana) culminando no pico térmico de 27,5 °C na tarde do dia 3 de Setembro.
O detalhe mais fascinante deste gráfico semanal é ver a linha verde do Ponto de Orvalho a afundar de forma drástica à medida que a temperatura subia. Enquanto a temperatura subia para os picos máximos na Quarta-feira (2 de Setembro) e no dia seguinte, o ponto de orvalho caiu em flecha, chegando a valores negativos importantes (-5 °C a -6 °C). Fisicamente, isto comprova que a massa de ar que entrou na serra não veio apenas com calor, mas sim com uma ausência quase total de humidade. É a assinatura perfeita de uma entrada de ar tropical continental muito seco (notícia).
Este gráfico prova que os 23,4 °C seguidos de 32% de humidade que se verificaram na manhã do dia 4 de Setembro não são um erro isolado nem um defeito que apareceu hoje: são o culminar de uma onda de calor e secura extrema em altitude que se instalou progressivamente na região ao longo dos últimos dias.
Daqui se explica o facto de o topo da serra estar tão seco, o que por outro lado aumenta exponencialmente o risco de incêndio.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados) via Carlos Araújo / EMEC


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