sexta-feira, 1 de julho de 2016

Trilhos seculares - Do Arado ao Iteiro d'Ovos, uma jornada geresiana


Aproveitando os dias de Verão, fiz uma nova jornada pela Serra do Geres por caminhos já conhecidos, mas que mesmo assim não deixam de proporcionar momentos únicos de vivência e partilha. Um oportunidade para mostrar um pouquinho mais da mais bela serra de Portugal.

A manhã fresca fazia-se sentir na Ponte do Arado ainda mergulhada nas sombras projectadas pelo Sol ainda baixo no horizonte escondido para os lados de Fafião. A caminhada começou com as escadas que nos levaram ao miradouro sobre a Cascata do Arado, verdadeiro postal geresiano nestes dias mais quentes e que certamente milhares de vezes fotografada será nas semanas que aí virão. Deixando o miradouro para trás, vamos continuar a subir em direcção ao Prado de Teixeira passando ao largo da Corga de Giesteira que exibe no seu extremo o Alto de Arrocela.

Os Portelos de Teixeira vão-nos mostrar a maravilhosa paisagem que se alonga até à Preza no outro lado do vale. O carreiro baixa então em direcção à Teixeira, local de uma primeira paragem para refrescar a garganta. O dia seco iria fazer-nos parar algumas vezes para nos refrescar numa sombra ou sorver a água, verdadeiro ouro líquido na serra por estes dias. Caminhar pelo Vale de Teixeira em direcção ao Curral de Cambalhão (Camalhão) é caminhar num dos mais belos vales nacionais e nos maravilharmos com a profundidade da Corga do Azevinheiro à nossa direita logo após deixarmos Teixeira, ou olharmos para as escarpas do Junco e do Pé de Salgueiro mais adiante. É vermos a imponência do maciço granítico do Cambalhão a seguir às Eirinhas e chegar ao jardim de carvalhos mortos do Curral do Cambalhão, escutando o leve correr das águas que ainda vão descendo da montanha. O Curral do Cambalhão está guardado pelo olhar atento da pequena estatueta que há já muitos anos abençoa o local.



Tanto os abrigos do Cambalhão como da Teixeira foram recentemente recuperados pelas vezeiras que ainda os usam quando para ali trazem o gado entre Maio e Outubro. O mesmo aconteceu aos carreiros, facilitando assim a progressão por aqueles espaços.

Deixando o curral para trás, vamos entrar na Garganta da Preza e um pouco adiante tomar a longa subida da Pegada das Ruivas que nos levará até à Chã da Fonte. Esta é uma subida para corações fortes não só pelo esforço, mas também pela paisagem que vai sofrendo uma metamorfose à medida que vamos subindo. A subida até à Chã da Fonte foi necessariamente lenta, pois o caminho e principalmente o declive assim o obrigam e quanto mais não seja, não havia pressa para nada. Há medida que se ia subindo, a paisagem composta pelo Pé de Salgueiro e pelo Junco (Laspedo) ia-se afundando com o Pé de Cabril a enquadrar o Curral do Junco já na parte superior do caminho. Superado este obstáculo, paragem para recuperar forças na Chã da Fonte e para abastecer o cantil com a sempre fresca água que todo o ano brota daquela nascente.


A partir desta fonte dirigimo-nos ao épico Arco do Borrageiro. Postal pitoresco dos tempos do Gerês termas, ficou quase esquecido durante muitos anos, renascendo para o mundo dos fotógrafos de paisagem. Aqui, a Natureza moldou o granito com uma forma peculiar e única em toda a Serra do Gerês.

Como os companheiros e companheiras de jornada não conheciam o ponto mais alto do Gerês Clássico e Termal, subimos ao topo do Borrageiro e daqui miramos os píncaros serranos com o olhar a alargar-se às lonjuras da Serra da Peneda e da Serra do Larouco, no idos de Montalegre. Depois, prosseguimos para o abandonado Curral da Roca Negra que jaz à sombra deste promontório granítico já à vista da Meda de Rocalva que acabaríamos por ladear para chegarmos ao carreiro que faz parte do Trilho da Vezeira de Fafião. Passando ao lado da Mourisca, esta permitiu-nos ver ao longe o Curral do Conho enquadrado pelas Albas. Os Prados da Messe não são visíveis daqui, mas a serra proporciona-nos a paisagem constituída pelo Cantarelo, Cabeço da Cova da Porca (Torrinheira) e Cidadelhe.




Deixaríamos o Trilho da Vezeira de Fafião quando este afundou em direcção ao Curral da Mourisca no extremo do Vale das Fechinhas e viramos à direita em direcção ao Curral de Soengas. Daqui, o olhar era dominado pelos topos rochosos de Porta Ruivas. Porta Ruivas (ou Porta Roivas) não passa despercebido àqueles que caminham pelo coração selvagem da Serra do Gerês. Na divisão administrativa entre o Minho e Trás-os-Montes, Fernando da Silva Cosme no seu livro Pela Serra do Jurês e ao Longo da Jeira (2015), fala-nos de Porta Ruivas como "uma entrada para algum sítio de difícil acesso, por exemplo para uma fraga, de que são exemplo as Portas Ruivas de São Ane: são rochas de um lado e do outro e entre elas ficam espaços como de portas". Muitas vezes, Porta Ruivas é confundida com as 'Sombrosas' devido ao erro de posicionamento deste topónimo na carta militar.

O Curral de Soengas encontrava-se mergulhado numa frondosa vegetação e o seu forno passa quase despercebido encoberto que está. O carreiro prossegue por entre a vegetação e, ladeando o Iteiro d'Ovos, chegamos ao Curral de Iteiro d'Ovos. 




Ora, segundo José Cunha-Oliveira na publicação "Outeirinho, Outeiro" no seu blogue "Toponímia galego-portuguesa e brasileira", iteiro é uma variante dialectal de 'outeiro', 'oiteiro' e 'eiteiro'. Por outro lado, o blogue "Beijós XXI (2005-2009)" na sua publicação "Iteiro" refere que "Normalmente um cerro / morro que se destaca como acidente de terreno. Em várias regiões serviam como limites, términos, marcos da confluência de diferentes territórios, em particular nas civilizações pré-romanas. É esse o significado toponímico de Itero em Castela e Leão." Vejamos uma interpretação para Iteiro de Ovos. Sem dúvida que se trata de uma elevação característica naquela zona serrana e a sua localização situação nos limites concelhios de Terras de Bouro e de Montalegre. Uma interpretação mais difícil será os 'Ovos'; penso que este nome poderá estar relacionado com a grande quantidade de pedras que compõem aquele morro ou então poderá estar relacionado com um antigo local de nidificação de aves de rapina. Nenhuma destas tentativas para explicar o nome 'Ovos' tem base científica e é apenas minha especulação.

Depois do repasto no curral, prosseguimos até ao Estreito onde tivemos o prazer de contemplar o Vale do Rio Laço com o Curral da Touça ao fundo enquadrado à esquerda pelos morros de Porta Ruivas e pelo Iteiro d'Ovos, bem como pela Sesta da Amarela a meio do vale. Ao fundo, o Alto do Borrageiro (Borrageirinha, Borrageirinhas). O nosso percurso prosseguiu até ao Curral de Pradolã, sendo acompanhados pelas escarpas dos Bicos Altos à medida que íamos descendo para Pousada.

Aqui, já caminhávamos de novo no Trilho da Vezeira de Fafião que acabaríamos por abandonar de novo ao virar à direita para tomar um carreiro que nos levaria até ao Curral de Pinhô e depois à Tribela após passarmos a Ponte de Servas sobre o Rio do Conho. Finalmente, e já no estradão florestal passaríamos pelo Curral dos Portos e pelo Curral da Malhadoura antes de voltarmos ao nosso ponto de partida.

Algumas fotografias do dia...













































































Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

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