quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Trilhos seculares - A Pegada das Ruivas


Um dos encantos de conhecer a Serra do Gerês é a riqueza da sua toponímia aliada às suas paisagens e histórias. Caminhar no Gerês é muito mais do que fotografias e gostos em páginas sociais; é ajudar a manter vivo um património que é nacional e de todos nós. Num país que já pouco liga a si próprio, manter as suas raízes é o mínimo que se pode ajudar a construir.

Muitos dos topónimos não surgem nas cartas topográficas e nos mapas turísticos. Estão na memória e na vivência das gentes serranas que os vão preservando. É este espólio que deve ser registado a cada visita e a cada conversa. Já chega de 'Taihitis' e de 'Dulces Pontes' que vão ajudando a esquecer os verdadeiros nomes das coisas, infelizmente muitas vezes com o consentimento dos locais.

Muitas vezes as próprias cartas topográficas são fonte de erro, para já não falar de vários mapas que por aí vão surgindo. Por outro lado, por muito que se insista em referir que determinado local tem esta ou aquela designação, os ouvidos moucos fazem por perpetuar o engodo.

Esta caminhada começou às portas do Inverno com um ar ora mais frio ora mais quente. O vento forte fazia vergar as copas mais altas das árvores na Portela de Leonte e as folhas insistiam em saltar, irrequietas, ao ritmo do vento. Eram os últimos dias do Outono e este por vezes fazia-se sentir com ares de Primavera.



Estava de volta ao Gerês e isso era, por si só, razão suficiente de alegria. Cada caminhada começa com um primeiro passo, mas naquele momento a cada passo surgia a vontade de mais mil passos dar. Cada caminhada começa com um respirar fundo, encher os pulmões daquele ar frio e aguardar pelas paisagens e sensações por onde o caminho nos levaria.

Este é o local de início de muitas jornadas serranas no Gerês, caminhando em direcção ao Prado do Vidoal, o caminho vai serpenteando encosta acima por entre a vegetação e velhos carvalhos mortos e desnudados. A proteger-nos a retaguarda, o Pé de Cabril vai-se elevando na tela do horizonte, perfilando-se contra o céu azul polvilhado de nuvens cinzentas que correm vindas do Vale do Rio Gerês. Caminha-se por uma antiga calçada que por vezes dá lugar à terra desnuda e pisada. Aqui e ali, notam-se pequenos carreiros que se perdem entre a vegetação e que servem de passagem a pequenos animais. Aqui e ali, os preguiçosos vão abrindo outros carreiros ignorando a sabedoria dos pastores e pensando que poupam caminho.


A chegada à Chã do carvalho faz-se com um vento forte que nos faz abanar e tornar difícil segurar na máquina fotográfica. A paisagem já se transformou e os limites da Serra Amarela, do Soajo e da Peneda, vislumbram-se já à distância. A subida, agora mais suave, é várias vezes interrompida por momentos fotográficos únicos com jogos de luz e sombras à medida que o Sol vai tentando perfurar as nuvens escuras.

Rapidamente se chega então ao Vidoal, muitas vezes confundido com o Mourô quando este de facto fica situado mais a Sul. Guardado pelo Outeiro Moço, do Vidoal vislumbra-se o Pé de Medela e Carris de Maceira, além das escarpas de Lavadouros e a Corga dos Cântaros no fundo do Vale de Maceira.

O meu objectivo era «trepar» a Pegada das Ruivas e para lá chegar tinha duas opções: ou seguir o carreiro usual até à Presa (e não Freza) e daqui passar para o Curral do Junco e descer até ao início da estreita corga onde se eleva a Pegada das Ruivas, ou então seguir pela vertente Oeste do Outeiro Moço e daqui descer para o Curral do Junco. Decidi seguir por esta segunda opção que me levou então depois a descer até ao Curral do Junco (uma outra opção seria seguir para o Curral da Raiz e daqui virar a Nascente até chegar ao Curral do Junco seguindo um carreiro vindo de Sul). O carreiro que usei segue na vertente do Outeiro Moço e permite-nos vislumbrar parte do Vale do Rio Gerês até à albufeira da Caniçada. Seguindo as mariolas, é regra de ouro saber para onde queremos ir. Isto é importante devido á profusão de mariolas inúteis que surgem na serra. Felizmente, neste traçado não existem muitas mariolas que nos podem enganar e seguindo-as elas levam-nos ou para o Curral do Junco, para o Curral da Raiz, para o Vale de Teixeira ou para o Pé de Salgueiro (depois para o Curral da Lomba do Vidoeiro).


O Curral do Junco já não é utilizado à muitos anos e o seu abrigo encontra-se alagado, isto é, destruído. Uma curiosidade que distingue este singelo curral de muitos outros, é a existência de um pequeno tanque que tira proveito de uma nascente. Reza a história que não há muito tempo, uma das vezeiras tentou recuperar o seu forno. Infelizmente, uma outra vezeira terá destruído o trabalho da anterior e o curral está agora abandonado, não tendo sido recuperado nas recentes acções de melhoramento que foram executadas em vários currais.

Para chegarmos ao início da subida da Pegada das Ruivas, temos de seguir em direcção ao Cambalhão (Camalhão). O carreiro, recentemente recuperado e limpo, segue a margem do Rio Camalhão. A certo ponto, à esquerda, irão surgir uma mariolas que nos levam a entrar numa estreita corga e assim inicia-se a subida da Pegada das Ruivas. A 'Pegada das Ruivas' é um carreiro abrupto e um tanto ou quanto perigoso na sua descida. Boas pernas e bom fôlego são necessários na sua subida, mas a recompensa vai-se tendo à medida que se ganha altitude, com o espigão do Pé de Salgueiro a encher-nos as vistas! O percurso termina uns 200 metros mais acima na Chã da Fonte ou Alto das Ruivas. Esta é uma passagem usual para quem se dirige aos Prados da Messe vindos do Vidoal, um percurso clássico feito por muitos que visitam esta zona do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

O vento continuava forte e a paisagem ia-se transmutando a cada olhar. A cada fotografia, a esperança de que aquele momento de facto havia sido registado, mas no fundo a evidência de que esse momento teria de ser vivido ali, no imediato... agora!

Ainda não havia terminado de subir e então dirigi-me para a Chã das Gralheiras. Daqui, vislumbra-se a antena do Borrageiro que com o forte vento se fazia ouvir a boa distância. O caminho é mais plano e depois de passar duas pequenas corgas, vamos chegar ao Curral da Lomba de Pau. Segue-se uma pequena subida e inicia-se então uma descida até ao Curral do Conho, local de descanso por excelência nestas jornadas. Este é um curral magnífico, um oásis no meio do mar granítico que nos rodeia. O curral é guardado pelo Alto da Mourisca (no fundo do qual existe um dos currais mais desconhecidos da Serra do Gerês) e daqui vislumbram-se as escarpas de Fichinhas e de Porta Ruivas, bem como o topo da Meda de Rocalva, já nos domínios de Fafião.

A meteorologia estava a ameaçar chuva (que chegaria pela tarde) e então decido seguir em direcção a Carris de Maceira, abandonando a ida aos Prados da Messe. Seguindo velhos trilhos seculares escondidos pela vegetação, rodeei o Alto da Lomba de Pau (que abriga uma velha exploração mineira) e entrei no Vale da Ribeira do Porto das Vacas, vislumbrando à minha frente as Albas (guardiãs dos Prados da Messe) e depois o colosso granítico do Borrageiro, assinalando já as terras de Trás-os-Montes. Atravessando o pequeno ribeiro vamos encontrar um estreito carreiro que nos ajuda a subir o vale e atingir uma portela situada no extremo da Corga dos Cântaros. É aqui que nasce o pequeno ribeiro e aqui o trilho ora segue para a esquerda (Lomba de Pau) ora segue para a direita (Curral de Carris de Maceira, Pé de Medela ou Albas / Prados da Messe). Sendo o objectivo regressar à Portela de Leonte fazendo um percurso circular, decidi enveredar pelo carreiro à minha esquerda e seguir até ao Curral de Carris de Maceira. O caminho vai agora descer ininterruptamente até chegar ao Curral de Maceira depois de passar por Tábuas à vista da Corneda e sempre acompanhado de um forte vento que só vai amainar quando abrigado nos estreitos vales. Do Curral de Maceira, o carreiro leva-nos a atravessar o Rio Maceira numa recente ponte de madeira e em breve chegamos à estrada, com os penosos metros finais a serem feitos pelo asfalto até Leonte ou seguindo o antigo caminho florestal que nos leva a passar junto do Curral de S. João do Campo.

Algumas imagens do dia...






































































Fotografias © Rui C. Barbosa

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