domingo, 27 de dezembro de 2015

Sirvozelo - uma aldeia geresiana em Trás-os-Montes


Uma curta passagem pela pequena e bela aldeia de Sirvozelo, escondida entre a penedia quase à margem da albufeira da Barragem da Paradela.

A aldeia de Sirvozelo fica no concelho de Montalegre, e insere-se no plano das aldeias típicas de Portugal e de turismo de habitação, sendo muito procurado por gentes das cidades, para desfrutarem a Natureza e o modus vivendus de outros tempos e naturalmente outras gentes. Uma boa experiência, para quem quer fugir do turbilhão agitado da cidade. Perto daqui, fica toda uma região de aldeias tradicionais cheias de rusticidade e interesse turístico com tradições que ainda são o que eram.

Na sua quase generalidade, as aldeias do Concelho de Montalegre são escuras, edificadas em granito tosco e agrupando-se à volta de uma igreja ou, até, de um simples cruzeiro. Se muitas se localizam em lugares altos, onde existiram castros celtas, outras encravam-se na rocha, como acontece com as da Ponteira ou a de Sirvozelo. Outras distinguem-se pela tipicidade, rusticidade e harmonia bem preservadas, como são exemplos Pincães, Tourém, Pedrário, Paredes de Salto e Cervos. No centro geométrico do aglomerado posta-se, em regra, : uma pequena igreja oitocentista, que aos domingos e nos dias festivos fervilham de uma ancestral religiosidade. Actualmente, as aldeias crescem avulsamente, espalhando-se pelos terrenos periféricos, com casas de "estilo"e pinturas ao gosto, muitas vezes discutível, dos proprietários, em que predominam os emigrantes.

Nas poucas ruas de granito das aldeias, pelas quais o tempo escorre devagar e sem grandes convulsões, é frequente ver-se mais animais do que pessoas. As casas, muitas delas cobertas de colmo, perfilam-se dos dois lados, caracterizadas por escaleiras, sobrados e varandas. No rés-do-chão ficam a arrecadação da lenha, o celeiro das batatas e a adega e alojam-se vacas, porcos, ovelhas, galinhas e o burro. O canastro de granito ergue-se na eira lageada ou relvada que, em Julho e Agosto, se enche de medas de centeio que são outras tantas ogivas góticas da catedral da fartura. Uma das divisões nobres é o sobrado, com a cama de madeira de castanho ou carvalho, a arca da limpeza e o lavatório de louça ou esmalte.

O aposento nuclear da casa é, todavia, a cozinha, primordial espaço de convívio e sempre de bem mantida tipicidade, com a lareira e a chaminé, às vezes de dimensões imponentes e decoradas com os lareiros para secar fumeiro, o escano, o banco corrido, a gramalheira ou burra onde se penduram os potes, o transfugueiro e a tenaz. Pelo aposento se espalha mobiliário e apetrecho adicionais: o mosquiteiro, os bancos ou mochos, o cortiço do sal, a salgadeira, a toucinheira e a cesta das batatas. E mais o pipo do vinho e respectiva caneca, a sertã de ferro, o lampião e a candeia, pendurados, o púcaro de barro para o leite e os pratos de madeira para a manteiga e, no chão, o cântaro da água. Num dos cantos, alinham-se os utensílios do ciclo do pão: a masseira, a peneira, sacos de estopa para a farinha, cestos do pão com lençóis também de estopa, a pá e a vassoura do forno e o galheiro de pendurar o pão.

No pátio ou alpendre, guarda-se a recato a espantosa panóplia da faina agrícola, com nomes de antiga - e porque não lírica? - ressonância: carros de bois, arados de madeira, grades, enxadas, engaços, sachos, rajetas, forquilhas, gadanhas, fouces, foucinhas, serra, serrão, machado, safra e martelo, molhelhas, apeiro, sogas, albardas, o corno para a pedra de amolar, uma pedra grande de amolar, manguitos de burel, polainas, socos, socas, cestos e cestas, mandil, croças e croços, um bazar de criação marcadamente artesanal que mantém a memória de outros tempos, vivências, usos e costumes de uma ruralidade que vai cedendo o passo a modernidades e modernices, numa inevitável intrusão tecnológica comandada pela caixa hipnótica da televisão.


















Texto: Câmara Municipal de Montalegre

Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

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