domingo, 5 de abril de 2015

Trilhos seculares - Pelos domínios de Pincães


Há muito, mas mesmo muito tempo que era devida esta visita às terras de Pincães que permaneciam como que um mistério para mim. É o que dá querer conhecer a fundo a Serra do Gerês, o tempo é-nos sempre curto e a cada descoberta surgem outras pistas para seguir. Assim, Pincães ficava quase sempre como uma passagem fugaz a caminho de outros pontos aos quais fui dedicando mais tempo. Neste dia, era então chegada a hora de ver «com olhos de ver» aquelas terras, e que coisas podem ser vistas!

Imaginai que até a tão badalada Cascata de Pincães me escapava do olhar por tantos dias. Agora já não o faz!

O dia primaveril estava excelente para caminhar, infelizmente os meus pulmões não. Cheios de algo de uma coisa parecida com uma constipação, cada passada em subida parecia um desafio insuportável como que estivesse a escalar as grandes paredes do mundo! Aos poucos, a cada passada, foi-se vencendo o desafio e a visita lá se ia fazendo.

Como muitas caminhadas, esta também começou no Carvalhal e enveredando pelas ruelas da aldeia, dirigimo-nos para a Cascata de Pincães. Esta está situada no Vale das Traves que se vai afunilando à medida que nos aproxima-mos da queda de água. Esculpido ao longo de milénios, o granito vai-se deixando vencer e criando um dos postais ilustrados de Pincães que merece paragem demorada e observação atenta de todos os detalhes.

Voltando atrás no caminho, acabamos pouco depois por enveredar por um estreito carreio que, ladeando a Poça da Rocha da Fecha, nos levou a um estradão que nos conduz ao Vale da Bica. Antes de atingir uma singela ponte de granito o nosso trajecto flectiu para a Jarela onde encontramos a primeira de duas silhas (Silha de Jarela) pelas quais passaríamos neste dia. O vale aqui estreita-se e decidimos trocar de margem para seguir para montante até atingir uma queda de água na Rocha do Muro (Topo do Muro), acima do qual se encontra o Muro, onde encontra-mos a segunda silha do dia (Silha do Muro).

As silhas são pequenos muros que de forma geral serviam para proteger as colmeias (cortiços) dos ursos. Segundo Francisco Álvares e José Domingues no seu artigo "Presença histórica do urso em Portugal e testemunhos da sua relação com as comunidades rurais", "O último registo confirmado de urso nas montanhas fronteiriças do Noroeste de Portugal, é todavia mais recente e diz respeito ao abate de um urso, em Junho de 1946, por Camilo Lloves Gonzalez, habitante de Couceiros, na Serra do Laboreiro, a menos de cinco quilómetros da fronteira portuguesa de Melgaço

Este facto, publicado no jornal “Pueblo Galego” de 17 de Junho de 1946 e frequentemente citado em fontes bibliográficas posteriores, foi confirmado por um dos autores do presente trabalho (F. Álvares) através de uma entrevista a Camilo Lloves em 4.10.1996, o qual, apesar dos seus 80 anos de idade, relatou em pormenor os acontecimentos. O urso abatido era um macho com 102 kg (possivelmente sub-adulto) e, na altura, dizia-se que nessa região andariam três ursos que com frequência destruíam colmeias e silhas, e dos quais um foi o que veio a ser abatido."

Nos nossos dias, as silhas, tais como os fojos do lobo, permanecem como memórias vivas de uma difícil relação entre o Homem e os animais selvagens das nossas serranias, uma relação que nem sempre foi equilibrada para o lado desses animais.

Prosseguindo a nossa jornada, enveredamos vale acima para atingirmos o Fojo do lobo de Pincães (ou Fojo do Sobreiro). Na minha primeira visita a este local, o fojo encontrava-se em avançado estado de degradação, porém foi recentemente alvo de uma recuperação e agora podemos visitar o fojo como seria no seu estado original.

Deixando o fojo para trás, entraríamos no bordo da Corga Funda (ou Corga de Marcozende) que terminaria numa larga laje granítica no fundo da qual existe um pequeno muro de pedra solta que será alvo de posterior visita. De mariolas bem conservadas e caminho bem definido, a passagem seguinte levar-nos-ia a um velho e abandonado curral no sopé do Alto de Palma, o Curral de Palma, que é agora uma memória de outras vezeiras e de outros tempos.

O plano original da caminhada seria prosseguirmos até ao Fojo de Alcantâra, porém, e não querendo abusar da sorte com uma respiração pesada e por vezes ofegante, decidimos encetar o regresso a Pincães e assim descemos para os Currais de Ruivós, seguindo depois para a Pala Doce e depois regressando à aldeia de Pincães.

(Um agradecimento especial ao Filipe Cardoso pela ajuda com a toponímia de Pincães).





























Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

1 comentário:

Alexandre Matos disse...

Deve ter sido muito bom apesar das dificuldades respiratórias, imagino. Que inveja ;)