sexta-feira, 25 de abril de 2014

Trilhos seculares - "Trilho da Picota"


Neste dia primaveril invernoso, rumei para uma parte da Serra do Gerês que já não visitava à alguns meses. O objectivo era procurar por velhos currais e visitar uns outros que me pareciam promissores para um trabalho futuro, mas acabei por reconhecer um velho carreiro que calcorreia uma parte da serra que não havia visitado.

Baseando-me na informação proveniente da Carta 31 e do Google Earth, e segundo também a recomendação do Paulo Costa, enveredei por um estradão que se inicia não muito longe do desvio para a Cascata de Cela Cavalos, mas seguindo em direcção a Nascente. O objectivo seria passar pelo que pareciam currais logo junto à estrada e terminar em Sudro, já junto da albufeira da Barragem de Paradela.

Nestas coisas da montanha, por vezes a ansiedade leva-nos a seguir por onde as nossas botas «nos mandam». Foi o que aconteceu, e pouco depois apercebi-me que havia seguido o caminho errado, Porém, há muitos males que surgem por bem e este erro foi um deles pois mais adiante iria proporcionar o acesso a alguns locais muito interessantes.

O caminho começou por nos levar até aos Currais da Picota, dois currais que se encontram junto do maciço granítico característico com o mesmo orónimo e que, há falta de melhor, decidi utilizar para baptizar este trajecto. Daqui, o estradão em terra batida vai-se transformar num carreiro de pé-posto que seguindo a Norte nos irá levar a descer para o Souto da Picota a partir do qual sai um outro carreiro que nos colocaria no estradão pelo qual originalmente deveríamos ter seguido. O Souto da Picota, com os seus castanheiros altaneiros, é um local fantástico que «perto» do Outeiro, na outra margem da albufeira, nos coloca numa floresta mística, virgem e fantástica, povoada de seres mitológicos e de animais mais reais, tal como se poderia constatar pelas marcas deixadas pelos javalis e outros.

Saindo então do souto, o carreiro vai-nos levar até uma calçada, velhos vestígios do esforço do homem em melhorar o acesso àquele local e que ainda hoje será utilizado quando a Natureza decide que é tempo de as castanhas ocuparem o seu lugar no chão. Esta calçada vai-nos então levar para o estradão que segue em direcção a Sudro, destino da nossa jornada, no entanto, antes de iniciar a descida para este local, deparou-se-nos à esquerda um recém aberto caminho que empinava serra acima. Ora, recém aberto não significa caminho novo, antes pelo contrário! Aquele provavelmente seria um dos acessos privilegiados que as populações de Outeiro e Parada de Outeiro utilizariam para aceder ao Gerês profundo e aos seus currais de altitude.

De facto, e se me permitirem a especulação histórica, poderia ter sido por aquele caminho que Domingos da Silva, o jovem jornaleiro de Outeiro, teria seguido nos distantes dias de Junho de 1941 quando encetou a busca do volfrâmio pelas serranias do Gerês. Domingos da Silva acabaria por descobrir o outro negro nas entranhas do Salto do Lobo, fazendo o registo do seu manifesto mineiro a 24 de Junho de 1941.

Este velho caminho, lageado em algumas secções, vai-nos levar a passar junto da Portela de Ramos seguindo depois em direcção a Entre Caminhos. A paisagem é fenomenal mesmo em dia nublados com as nuvens a lamber os picos serranos mais distantes dos Carris, Nevosa e Cornos da Fonte Fria. Perante nós, surgem os Cornos de Candela, o Alto de S. João e a imponência do Compadre que se derrama na Biduiça. Ao fundo, o encaixado vale aprisiona o Rio Dola com a sua impressionante cascata que é visível pouco antes de chegar a Entre Caminhos.

Convém salientar que a aproximação a Entre Caminhos encontra-se fora do carreiro que seguíamos, porém (e tal como todo o percurso) esta parte do caminho está bem marcada por mariolas. Em grande parte do percurso foi possível aperceber da existência de velhos currais. No entanto, e sendo esta uma característica de muitas destas estruturas, estes currais não possuam qualquer abrigo pastoril o que pode indicar que estas tenham sido área de cultivo e não de pastoreio como se verifica em outras zonas da serra (apesar de muitos currais geresianos terem esta dupla utilização, como por exemplo o Curral das Abrótegas, os Currais da Matança ou alguns dos currais existentes na Lamalonga).

Na caminhada decidimos não descer a Entre Caminhos pois as condições meteorológicas iam-se degradando a olhos vistos, e com a chuva a chegar e a temperatura a descer também desistimos de baixar para o Dola, decidindo voltar atrás e continuar a seguir o carreiro recém aberto. Foi uma boa decisão, pois o traçado levar-nos-ia até perto do nosso ponto de partida e proporcionou-nos uma outra perspectiva do vale do Cávado na sua caminhada minorante.

Uma pequena nota sobre este percurso recém aberto. Desconhece qual o objectivo dos trabalhos que levaram à (re)abertura deste percurso. No entanto, e sendo qual for a intenção, é uma prova de como se pode valorizar os recursos que a Serra do Gerês pode proporcionar em termos de percursos de montanha. No total foram percorridos cerca de 10 km com uma considerável variedade de paisagens de montanha que certamente seriam do agrado de muitos se o trajecto fosse equipado para se transformar numa Pequena Rota. Parabéns pelos esforços e pela iniciativa.

Ficam algumas imagens do dia...
































Fotografias © Rui C. Barbosa

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