Esta foi a primeira de quatro caminhadas no Parque Nacional dos Picos de Europa entre 11 e 14 de Junho, num evento organizado pela RB Hiking & Trekking.
O objectivo foi atingir o cume da Torre de Horcados Rojos, caminhando pelas quase estéreis paisagens de rocha calcárea do maciço central dos Picos de Europa.
Após a subida por teleférico numa «rápida» viagem de 4 minutos entre Fuente Dé e El Cable, iniciamos a caminhada após uma breve conversa sobre o que iríamos fazer, o que irímos visitar e sobre o que cada um estaria disposto a atingir. Na RB Hiking & Trekking não se obriga ninguém a trepar cumes; preferimos que cada um desfrute a montanha à sua maneira, conhendo e tendo a certeza dos seus limites e dos riscos que cada um está disposto a correr.
O ar fresco da manhã acompanhou-nos nos primeiros quilómetros e especialmente quando mergulhavamos na sombra que projectava daquela paisagem «quasi» dolomítica. A parte inicial leva-nos pelas memórias das paisagens mineiras dos Picos de Europa e das quais sobram ruínas, estradões e memórias.
Em 1853, a Real Companhia Asturiana de Mineração iniciou a prospecção nos Picos da Europa, descobrindo importantes jazidas de zinco e chumbo no ano seguinte. Dois anos depois, em 1856, iniciaram-se as operações de mineração em Áliva e arredores. Quase simultaneamente, a empresa "La Providencia" iniciou também as suas actividades mineiras. Assim que as descobertas se tornaram públicas, os registos mineiros proliferaram por toda a região.
De todas as minas, Las Manforas, em Áliva, era a mais importante. A sua operação intermitente continuou até 1989, quando foi finalmente encerrada. Havia também minas nas proximidades, em Canal del Vidrio, Duje, La Marta Navarra, Puertos de Áliva e Horcadina de Covarrobres. Para além de Áliva, foram exploradas minas em Lloroza (Las Gramas e Altáiz), Fuente Dé e Liordes.
A localização das minas, em terreno montanhoso a uma altitude superior a 1.500 metros, causou problemas a três níveis no período que antecedeu a Guerra Civil, nomeadamente, os invernos rigorosos impediam o trabalho durante todo o ano e as campanhas mineiras duravam de Maio ou Junho até Novembro; a distância das localidades mais próximas — Espinama e Sotres — criava dificuldades logísticas nas quais os trabalhadores não podiam viajar diariamente para casa e regressar, e por outro lado, o abastecimento era também mais complicado; a dificuldade de transporte do minério, pois a necessidade de o transportar de locais tão remotos até Unquera, a cerca de 70 km de distância, onde era carregado em navios, aumentava significativamente o custo do produto.
Para mitigar estes problemas, as empresas mineiras construíram edifícios para albergar os seus funcionários em Áliva, Lloroza e Liordes. Além disso, foi construída uma extensa rede de estradas por onde os carros de bois transportavam o minério. O livro "Liébana e os Picos da Europa", publicado em 1913 por "La Voz de Liébana", descreve o seguinte: "Em Áliva, a empresa mineira La Providencia explora diversos depósitos de esfalerite e, para satisfazer as necessidades das minas, construiu estradas, auto-estradas, dois edifícios, um para os engenheiros e outro (a 1.518 m) para cozinha, refeitório e estábulos, bem como alguns barracões ou cabanas onde os trabalhadores dormem. Ao pé do Canal del Vidrio, existe uma fábrica de lavagem de minério e um edifício pertencente à empresa Echevarría." A Real Companhia Mineira Asturiana explorava então as minas de Lloroza, estando o seu edifício principal situado a uma altitude de 1.865 metros. A mina de Altáiz era também administrada pela Real Companhia Mineira Asturiana.
As instalações de lavagem, como as referidas em Canal del Vidrio ou Liordes, eram utilizadas para processar minério de qualidade inferior antes do seu transporte para Espinama. Este minério era britado em moinhos, lavado e concentrado em peneiras de palanquim ou silos de estilo alemão para facilitar o transporte. O minério de alta qualidade, por outro lado, era levado de carroça diretamente para Espinama, de onde seguia viagem até Unquera.
As minas de Lloroza (Las Gramas e Altáiz), com baixo teor de galena ou esfalerite, deixaram de ser exploradas no início da década de 1920. As minas de Liordes, por sua vez, com muitas operações intermitentes, foram sujeitas a alguma exploração residual até à década de 1950, período em que a exploração das minas de Fuente Dé também cessou, apesar da descoberta, alguns anos antes (por volta de 1952), de um novo jazigo que foi explorado pela Real Companhia Asturiana.
Um olhar atento ainda consegue discernir os restos mineiros e as velhas estradas facilitam o acesso aos cumes. Esta paisagem continua depois da chamada "Vueltona" onde se inicia a subida para perto do refúgio Cabaña Verónica. Em passo cadenciado, fomos ultrapassando as marcas no altímetro e em breve encontravamos os restos do Inverno nos «neveros» qua ainda resistem aos dias de calor.
Chegados à Collada de los Horcados Rojos, todo o grupo decidiu «atacar o cume». Para muitos constituiu um verdadeiro desafio (só ultrapassado pela descida!), mas aos poucos ia-se vencendo o declive. O percurso, de muito calcorreado, apresenta uma rocha muito descomposta e que por vezes parece fugir por debaixo dos pés. Por outro lado, os palermas apressados e que não podem perder segundos em filas na subida ou descida, acabam por ir criando outros trajectos e fazendo com que os velhos caminhos desapareçam sobre as rochas que se deslocam. Vimos gente que, sem conhecer o caminho, se enfiavam em chaminés com arestas cortantes a caminho do cume ou se colocavam demasiado próximas de um abismo fatal.
Terminada a subida, faltava um pequeno troço para chegar ao ponto mais elevado. Alguns decidiram não fazer estes últimos metros. Não importa, o desafio pessoal estava vencido e não são aqueles últimos metros até à caixa do cume que os torna mais ou menos valiosos do que os outros. Todos venceram.
A paisagem era magnífica com o Cantábrico a compor o cenário de picos, vales, arestas e cumes pontiagudos que tão caracterizam a paisagem.
Era chegada a hora de descer! O percurso até à segurança do colado fez-se de forma tranquila, em segurança total e sem problemas; a paragem na Cabaña verónica era já merecida, bem como o descanso de um dia que já estava quente.
Após o descanso iniciava-se a parte final da jornada que nos levaria (em sentido contrário) até à Horcadina de Covarrobres, iniciando-se a descida para os Puertos de Áliva através do Collado de Juan Toribio. A parte final do percurso foi feita desde o (fechado para obras) Hotel Refúgio de Áliva através do estradão, descendo para Espinama a partir da Portilla del Boquejon.
Ficam algumas imagens do dia...
Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)


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