quarta-feira, 1 de agosto de 2012

...reflexões antes do ACANAC

Os leitores deste blogue sabem que por vezes surgem textos que escapam ao seu tema principal. O seguinte é um desses textos e reflecte a minha posição actual sobre um movimento ao qual pertenço desde 1983. Pode ser encarado como o «meu» manifesto sobre o Escutismo tal como ele é praticado actualmente no Corpo Nacional de Escutas. O texto reflecte os meus pensamentos e nada mais do que isso, não estando de maneira alguma associado ao Agrupamento ao qual orgulhosamente pertenço desde sempre e para sempre...

"O Escutismo foi para mim uma escola de formação complementar à educação familiar e à formação escolar. Desde cedo me ensinou a viver em grupo, partilhando vivências, aventuras e ganhando um conhecimento que me ajudou a formar para a vida adulta, respeitando o meu semelhante nas suas diferenças e estando ao seu lado em todos os momentos. Mas também me ensinou a apontar as injustiças e a defender as causas pelas quais me dedico.

Baden-Powell criou o Movimento Escutista para educar os jovens através da sua responsabilização no seio do seu grupo - a Patrulha, e através do contacto com a Natureza, privilegiando as inúmeras actividades ao ar livre. Citando-o, "o nosso objectivo é criar cidadãos saudáveis, felizes, e úteis, de ambos os sexos, para erradicar o egoísmo - pessoal, político, partidário e nacional - e substituí-lo por um espírito mais aberto de sacrifício e serviço em prol do bem comum, e assim desenvolver a mútua compreensão e cooperação não só no próprio país, como no estrangeiro, entre todas as nações." Define-se o Escutismo na sua proposta pelo o desenvolvimento do jovem, por meio de um sistema de valores que dá prioridade à honra, baseado na Promessa e na Lei do Escuta, e através da prática do trabalho em equipe e da vida ao ar livre, fazer com que o jovem assuma o seu próprio crescimento, tornando-se um exemplo de fraternidade, lealdade, altruísmo, responsabilidade, respeito e disciplina.

O Método Escutista é um sistema de progressão com a intenção de estimular cada jovem a desenvolver as suas capacidades e seus interesses, colocando desafios a serem superados, aventuras, incentivando a explorar, a descobrir, a experimentar, a inventar e a criar a capacidade de determinar soluções, respeitando-os sempre individualmente.

Assim, Baden-Powell criou as bases de um jogo no qual se vai evoluindo na fase da juventude para a vida adulta, tentando no fundo nunca esquecer essas bases que nos devem servir, como Dirigentes responsáveis, para estabelecer as pontes com os jovens Escuteiros.

Através do seu lema "Sempre Alerta para Servir", a formação do Escuteiro como elemento interveniente na sociedade deve servir para derrubar as barreiras que nos separam. Ao tomar a sua decisão consciente, uma opção de vida, o jovem Escuteiro é chamado a representar um papel responsável e de elevado respeito pelo seu próximo. Respeitar as suas diferenças e estabelecer o seu papel exemplar, como um paradigma para a Sociedade moderna.

O respeito pelo próximo e a aceitação das diferenças deve, em suma, caracterizar o movimento.

Ingressei no Corpo Nacional de Escutas nos primeiros meses de 1983 e fiz a minha Promessa de Explorador a 26 de Fevereiro de 1984. Desde então passei pelo Grupo Pioneiro (então Explorador Sénior) e pelo Clã, tendo no final deste ciclo tomado a decisão de prosseguir no Movimento e avançando para a minha Promessa de Dirigente a 13 de Dezembro de 1992. Aqui assumi o cargo de Chefe do Grupo Pioneiro 28 do Agrupamento XIX – S. Vicente, Braga, a minha alma mater Escutista desde sempre. Devo aos meus Chefes desde Explorador todo o caminho traçado no Escutismo e tendo como vários dos seus princípios procurei ajudar os jovens Pioneiros a prepararem-se para aquilo a que chamam de “Homem Novo” na construção de uma sociedade mais fraterna, leal, altruísta, responsável, respeitadora e disciplinada.

Ao longo dos anos o Corpo Nacional de Escutas foi sofrendo uma metamorfose, transformando-se no grande movimento de juventude nacional. O Escutismo foi servindo de exemplo para muitos outros movimentos de jovens na forma como estes são formados. Porém, e como acontece em muitas situações, aos poucos vão-se perdendo as características que o caracterizam. O Corpo Nacional de Escutas não deveria (não deve) ser um laboratório de experiências pedagógicas nas quais se vão esquecendo as raízes do Movimento a nível mundial, transformando-o num emaranhado de propostas completamente desfasadas das necessidades dos nossos jovens.


Quem dirige o Corpo Nacional de Escutas não pode esquecer os pilares fundamentais do Movimento Escutista, isto é, a fraternidade, a lealdade, o altruísmo, a responsabilidade, o respeito e a disciplina. Quem dirige o Corpo Nacional de Escutas não pode ser a fonte de descriminação nas decisões que toma, penalizando estilos alternativos de vida saudável dentro do próprio CNE e privilegiando outros factores que mancham o nosso movimento. Os exemplos são vários e estarão à vista de todos. A nossa Direcção Nacional deve procurar a excelência no Servir. Não querer aprender com os erros passados, fechando os olhos às evidências, é tentar transformar o CNE num grande movimento de jovens que só se diferencia no essencial pelos números, mas que no geral é apenas uma parte indiferenciada de uma manta de retalhos que se rompe à mínima tensão.

Deve-se criar um novo paradigma para o Corpo Nacional de Escutas, um paradigma que respeite as diferenças, derrube o individualismo e reflicta sobre os dogmas. Quero um CNE como ferramenta de educação «informal», baseado nos simples princípios de Baden-Poweel e do jogo Escutista, não um espelho e reflexos dos erros que contaminam a sociedade portuguesa, fazendo eco de um «escuteirar» vazio de razão e de objectivos."

Braga, 1 de Agosto de 2012

1 comentário:

rui fumega disse...

Concordo plenamente consigo. Este novo método quer transformar os chefes, deixando de serem os amigos e companheiros que sempre deveriam ser, para se tornarem em psicólogos e controladores de progresso estampado em mapas, mapinhas, folhas e folhinhas complicadas demais. Ainda por cima parece que está feito para valorizar os "melhores" realçando-os, quando o que se deveria valorizar eram aqueles que ajudam os outros e os mais fracos do seu grupo.
Uma canhota