sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Paisagens da Peneda-Gerês (CCLVII) - A eterna beleza das árvores
A eterna beleza das árvores, Serra do Gerês...
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
quinta-feira, 6 de setembro de 2018
Trilhos seculares - De S. João do Campo às Caldas do Gerês
Terceiro dia da travessia entre Lindoso e Fafião com uma pequena etapa entre S. João do Campo e as Caldas do Gerês.
O percurso foi feito seguindo em direcção ao Prado de Gamil e depois para a Casa Florestal de Junceda, a partir da qual tomamos o Trilho dos Miradouros na sua descida para as Caldas do Gerês.
Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
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Trilhos Seculares
Quando nem o Amor me reconhece
Hoje não quero estar aqui
Não quero estar em lado algum
Quero ser transparente, invisível aos olhos de todos
Sinto-me vazio, esgotado, perdido, sozinho
Perdido em sentimentos que me fazem chorar
Sou estranho a mim mesmo quando nem o Amor me reconhece.
Só
Tu...
...continuas a ser a minha montanha.
Por ti caminho todos os dias.
Sentindo... O teu Amor, o teu beijo, a tua saudade...
Foi nas suas asas que voei
Para terras distantes levando comigo a recordação dos nossos dias e o sabor das nossas noites
Foram noites de paixão
Trouxe ...
...a saudade das noites frias e do calor do teu corpo
A memória do teu sereno rosto enquanto sonhas
A cadência do teu peito e o teu sorriso ao despertar
Dava-te a minha mão depois de um carinho e murmurava, "Amor..."
Esses dias estão agora longe, cada vez mais longe perdidos num calendário de memórias cada vez mais etéreas
Sinto-me vazio e o coração chora.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
quarta-feira, 5 de setembro de 2018
IV Jornadas Técnicas Sobre Os Carvalhos
De 26 a 28 de Outubro irão decorrer em Terras de Bouro as IV Jornadas Técnicas Sobre os Carvalhos. Estas Jornadas técnicas sobre os Carvalhos, agora com realização bienal, nos anos pares, dão continuidade a um projecto iniciado em 2013 como corolário do objetivo partilhado por várias entidades de promoverem uma floresta portuguesa saudável e rica para aqueles que nela vivem e dela dependem, bem como proporcionar espaços lúdicos e de ócio aos visitantes.
Com a duração gratuita de 3 dias, estas jornadas decorrem no Campo do Gerês, Terras de Bouro, em pleno coração do Minho e do único Parque Nacional, o da Peneda-Gerês, onde se encontra a Mata de Albergaria de uma riqueza natural única. Os participantes, oradores, convidados e escolas são recebidos nos Museus de Vilarinho das Furnas e da Geira, para partilharem a sua experiência e conhecimento através de apresentações, debates, provas gastronómicas e momentos didácticos.
Como a floresta não se vive em sala, são programadas saídas à floresta para conhecer o espaço mas também para darem o seu contributo ao legado deste património colectivo, através de acções de plantação e colheita de sementes.
Se na floresta se geram uma multiplicidade de valores económicos, sociais e ambientais, o que se quer com estas jornadas é que cada um experiencie isso mesmo. Para as IV Jornadas Técnicas sobre os Carvalhos e como tema principal foi escolhido o lema “Educar para a Floresta Autóctone” em três abordagens:
a) Educar para o futuro; b) Educar para amanhã e c) Educar para beneficiar.
De facto, existe a necessidade urgente de repensar sobre a nossa forma de agir e incutir em todos nós, nomeadamente nos mais novos, uma consciência crítica sobre a problemática ambiental.
Para formalizar a sua inscrição, inscreva-se aqui https://goo.gl/forms/fbc7QrJ8usYd6vlD2
Inscrições limitadas
Confirmem a vossa presença até ao dia 19 de outubro, através do e-mail:
martins@atahca.pt (José Carlos Martins -Técnico da ETL do GAL da ATAHCA) ou contactar pelos números 253321130 /911 193 518.
"Usos e desusos das Terras de Tourém"
“Usos e Desusos das Terras de Tourém – transformações socio-territoriais numa aldeia rural fronteiriça do Norte de Portugal com a Galiza” de Diego Amoedo Martínez (Obra ganhadora do XXII prémio Vicente Risco de Ciências Sociais)
Este ensaio é fruto da dissertação de mestrado intitulada: “Usos e desusos das terras de Tourém: transformações sócio-territoriais de uma aldeia rural fronteiriça entre a Galiza e Portugal” após uma pesquisa de campo realizada entre os anos 2011 e 2013 na aldeia de Tourém.
O foco principal é a análise das transformações sócio-territoriais da aldeia decorrentes desde finais da década de 1960 e começos de 1970, momento em que o aumento da emigração contemporânea teve seu auge. Foram abordadas, portanto, duas vertentes diferenciadas das mudanças acontecidas na aldeia: transformações sociais e territoriais da aldeia de Tourém, através do termo terra. A terra é elevada aqui a categoria analítica, pois, é um termo usado pelos moradores da aldeia de Tourém, um termo polissêmico que se refere à aldeia, baixo a nomeação de minha terra; as terras seriam também os diferentes destinos da emigração pelos que passaram os vizinhos da aldeia; e, finalmente a terra, também faz referência á terra-produtiva, sustento da agricultura e pecuária que é a actividade económica mais importante. Através das trajectórias de vida das pessoas da aldeia e de suas histórias de família e de vida, combinam-se os diálogos teóricos com as descrições etnográficas dos usos e desusos das terras de Tourém; assim como os diferentes grupos sociais e os diferentes tempos que têm as pessoas que moram na aldeia. De forma mais explicita dialoga com conceitos como territorialidade, território, mudança social, trajectórias de vida e vida rural.
Disponível na Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro em Vila Real...
terça-feira, 4 de setembro de 2018
"¿Se deben pagar los rescates de montaña cuando se puede demostrar negligencia?"
Para ler (em castelhano). E em Portugal?
Donde está el límite entre la imprudencia y la emergencia. Pocos rescates se han cobrado todavía , pese a que hay siete Comunidades Autónomas que ya se rigen por la ley de tasas.
O Castelo de Piconha
Não muito afastado de Tourém, já em terras do Couto Misto, localizava-se o Castelo de Piconha.
O texto seguinte é extraído daqui.
O "Castelo da Piconha" localizava-se entre as aldeias de Pena (hoje desaparecida, no caminho de Piconha a Montalegre), Vilar, Vilarinho e Randin, no atual outeiro de Almena, no município de Calvos de Randín, na Comunidade Autónoma da Galiza, na Espanha.
Castelo raiano na margem esquerda do rio Salas, no caminho que liga Randín a Vilar e Vilarinho, a leste da atual freguesia portuguesa de Tourém, era a cabeça das Terras da Piconha, defendendo ainda o chamado Couto Misto, que transitou para os domínios da Espanha pelo Tratado de Lisboa de 1864.
História
O castelo medieval
À época da Independência de Portugal, intensificou-se o povoamento das fronteiras com a Galiza. Nessa fase, no século XII, o Castelo da Piconha constituía-se em importante fortificação lindeira, com a função de guarnecer, juntamente com os castelos de Portelo, Montalegre, Monforte de Rio Frio e Chaves, os acessos aos vales dos rios Cávado e Tâmega.
Sancho I de Portugal (1185-1211) outorgou carta de foral a São Paio de Piconha, alçada à categoria de vila, em 1187, e visitou-a em 1189. Acredita-se que remonte a este período a construção ou ampliação do castelo.
Em 1221 forças de Afonso IX de Leão conquistaram Chaves e arrasaram a Piconha.
Afonso IV de Portugal (1325-1357) concedeu-lhe privilégios (5 de maio de 1325).
O castelo foi reconstruído em 1388 por determinação de João I de Portugal (1385-1433), que em seguida (4 de junho de 1398) doou esses domínios ao seu filho, o Infante Afonso de Portugal (1390-1400).
Sob o reinado de Manuel I de Portugal (1495-1521), a povoação e seu castelo encontram-se figurados por Duarte de Armas ("Livro das Fortalezas", c. 1509). Nesse período, a Piconha recebeu o Foral Novo, passado pelo soberano em 1515.
Os alcaides de Piconha
Afirma-se que, em 1538, ali apenas residia o alcaide. Estes eram nomeados pela Coroa de Portugal até à extinção das alcaidarias (3 de agosto de 1767). Eram apresentados pela Casa do duque de Bragança desde 24 de agosto de 1476. Os direitos da Casa de Bragança foram extintos em 1834. Entre os nomes desses alcaides, registam-se:
- Fernão de Sousa, que se notabilizou em Tânger, em 1437;
- António de Sousa, a título honorífico, em 1532;
- Fernão de Sousa;
- António de Araújo, em 1540, com uma história de roubo e crimes ao meirinho do vale de Salas;
- Gaspar de Carvalho ( 1564);
- Martin Afonso de Sousa
- Fernão de Sousa (1587)
- Tomé de Sousa (1635);
- Belchior do Prado;
- Duarte Teixeira Chaves (1682);
- Francisco Teixeira Chaves (29 de outubro de 1693);
- Alexandre Gusmão (16 de maio de 1714 a 1745);
- Alexandre de Sousa Pereira (20 de agosto de 1779), morgado de Vilar de Perdizes; e
- João António Sousa Pereira Coutinho (13 de maio de 1800 a 1825).
Da Guerra da Restauração aos nossos dias
No contexto da Guerra da Restauração da Independência de Portugal (1640-1668), este castelo, juntamente com outras praças vizinhas na região, foi demolido por tropas espanholas (1650).
Em 22 de novembro de 1788 o ouvidor da Comarca, Dr. Miguel Pereira Barros, relatou: "(...) não achei nem castelo, nem mais vestígios do que um poço com degraus, e menos achei casas algumas."
Às vésperas da Guerra Peninsular (1808-1814), entretanto, o castelo ainda permanecia na memória e na tradição, uma vez que o título de alcaide-mor do Castelo da Piconha foi recebido, em 20 de dezembro de 1800, por João António de Sousa Pereira Coutinho Yebra e Oca, 9.º morgado de Vilar de Perdizes e do Hospital de Santa Cruz, fidalgo da Casa Real (em 14 de outubro de 1799). As tropas napoleónicas na região destruíram, entre outros danos, a documentação sobre as origens e a história do castelo.
Tourém assumiu-se como o centro politico administrativo e económico da honra de Tourém, substituindo, nos cartórios da Administração Pública, a designação de concelho do Castelo da Piconha por concelho da Honra ou Vila de Tourém, uma das seis honras de Barroso (as demais eram Gralhas, Meixedo, Padornelos, Padroso e Vilar de Perdizes). O concelho de Tourém foi extinto na reforma de Passos Manuel de 1836.
Conforme os termos do Tratado de Lisboa (1864), tendo a maior parte das duas terras passado para domínio espanhol em 1865, o termo da Piconha foi extinto em 1866.
Subsistem, no Outeiro da Piconha, as ruínas dos alicerces do seu castelo medieval, carecendo de classificação por parte do poder público e de pesquisa arqueológica. Atualmente, só são visíveis partes de escadas e a cisterna escavada na rocha granítica. O caminho que conduzia o castelo encontra-se impraticável.
Características
O castelo era dominado pela torre de menagem, de planta quadrada, dividida internamente em três pavimentos, de onde se avistava toda a parte norte do vale do rio Salas. Era acedida por uma entrada, a meia altura, por uma escada amovível de madeira.
Bibliografia
GOMES, Rita Costa. "Castelos da Raia (v. II: Trás-os-Montes)". Lisboa: IPPAR, 2003.
Paisagens da Peneda-Gerês (CCLVI) - Castelo de Lindoso
O Castelo de Lindoso na defesa da fronteira Luso-galega.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
segunda-feira, 3 de setembro de 2018
Trilhos seculares - De Germil a S. João do Campo
Segundo dia de caminhada nesta travessia entre Lindoso e Fafião, tirando proveito do Trilho da Serra Amarela.
Antevia-se um dia quente e como tal, decidimos madrugar. O Sol ainda se escondia atrás das vertentes a nascente de Germil quando deixamos a aldeia que aos poucos, tal como nós, acordava do turpor de uma noite de Verão. Os cães olhavam-nos sem interesse ainda adormecidos nas soleiras das portas e os gatos eram totalmente indiferentes à nossa passagem. Germil ainda dormia e nós iniciávamos a «longa» travessia pela Serra Amarela.
Deixamos Germil para trás e em pouco tempo estávamos na aridez granítica a caminho das misteriosas Casarotas. Este conjunto de construções ainda hoje é tema de debate: terá sido uma branda pastoril ou um posto de defesa na nacionalidade? A impressão inicial submerge-nos num tempo abandonado por entre construções em ruínas. O mistério e o debate sobre a função destes abrigos de montanha mantém-se nos nossos dias. Citado na obra "O Gerês - De Bouro a Barroso", de Rosa Fernanda Moreira da Silva, Jorge Dias refere "(...) haver uma relação com as cabanas dos pastores e talvez fosse conduzir a uma curiosa solução, que traria também um elemento de grande interesse para a Etnografia. Poderia ser uma antiga branda dos pastores de Vilarinho. Uma branda há séculos abandonada, porque os habitantes da região descobriram uma maneira mais cómoda de aproveitar as pastagens altas, mediante uma organização colectiva, em que dois pastores substituídos diariamente por outros dois, à vez por todos os vizinhos, só precisam de passar uma noite na serra, para que lhes basta uma cabana em cada local de pernoita. Parece-me esta a hipótese mais plausível, mas, como disse, só depois de se fazerem escavações teremos talvez a solução" (in, "As Casarotas na Serra Amarela - construções megalíticas com uma inscrição" - 1946).
Assim, segundo Jorge Dias, as casarotas teriam uma função relacionada com a pastorícia na Serra Amarela. Porém, Rosa Fernanda Moreira da Silva tem outra interpretação para a função destas peculiares construções. Na página n.º 90 da sua citada obra lê-se "Somos de opinião que as Casarotas foram um dos elementos da célula defensiva das Portelas que, além dessas pequenas construções incluía, pelo lado Norte, uma pequena Trincheira, com o comprimentos de algumas dezenas de metros. Estes elementos estão estrategicamente localizados numa rechã inacessível do lado nascente. Mas perfeitamente enquadrados em relação às restantes edificações defensivas do vale do Homem, ou seja, as Casas do Facho, das Peças e da Guarda. De acordo com os argumentos apresentados as Casarotas foram um dos elementos da célula defensiva da Portela da Serra Amarela. Entretanto, seria muito enriquecedora a concretização de estudos sobre esta temática que, ao alargarem a análise temporal, poderiam contribuir para o equacionar de novas teorias sobre o passado."
No seu romance "Rio Homem", André Gago relata a jornada de Rogélio Pardo e Alda até aquele local num dia de calor. Refugiando-se no interior de uma daquelas construções, os dois irão consumar um amor há muito desejado nas páginas do livro. Assim, por entre o silêncio e o vento cinematográfico que percorre aquelas alturas, podemos imaginar esta passagem do romancista.
Ali perto, jaz silencioso o Fojo de Vilarinho. Monumento aos habitantes da aldeia mártir, é um exemplo da eterna luta pela sobrevivência do Homem nestas serranias agrestes e duras.
Assim, segundo Jorge Dias, as casarotas teriam uma função relacionada com a pastorícia na Serra Amarela. Porém, Rosa Fernanda Moreira da Silva tem outra interpretação para a função destas peculiares construções. Na página n.º 90 da sua citada obra lê-se "Somos de opinião que as Casarotas foram um dos elementos da célula defensiva das Portelas que, além dessas pequenas construções incluía, pelo lado Norte, uma pequena Trincheira, com o comprimentos de algumas dezenas de metros. Estes elementos estão estrategicamente localizados numa rechã inacessível do lado nascente. Mas perfeitamente enquadrados em relação às restantes edificações defensivas do vale do Homem, ou seja, as Casas do Facho, das Peças e da Guarda. De acordo com os argumentos apresentados as Casarotas foram um dos elementos da célula defensiva da Portela da Serra Amarela. Entretanto, seria muito enriquecedora a concretização de estudos sobre esta temática que, ao alargarem a análise temporal, poderiam contribuir para o equacionar de novas teorias sobre o passado."
No seu romance "Rio Homem", André Gago relata a jornada de Rogélio Pardo e Alda até aquele local num dia de calor. Refugiando-se no interior de uma daquelas construções, os dois irão consumar um amor há muito desejado nas páginas do livro. Assim, por entre o silêncio e o vento cinematográfico que percorre aquelas alturas, podemos imaginar esta passagem do romancista.
Ali perto, jaz silencioso o Fojo de Vilarinho. Monumento aos habitantes da aldeia mártir, é um exemplo da eterna luta pela sobrevivência do Homem nestas serranias agrestes e duras.
Deixando o fojo para trás, chegávamos ao Curral do Muro e daqui percorremos a vertente Sul da Louriça até chegar à Casa das Neves, descendo depois para os lados do Ramisquedo e seu curral, onde fizemos uma longa paragem para descanso.
A hora do calor aproximava-se e então prosseguimos até Vilarinho da Furna passando por Toutas e descendo pelo Fundo do Peito da Rocha, chegando aos campos de Vilarinho. Um pouco mais adiante, por entre o vozeiral de uma tarde quente de Sábado, fizemos uma paragem para refrescar os corpos. Cada visita a Vilarinho da Furna é uma elegia, uma homenagem à luta de um povo contra o opressor que se materializou em forma de um muro de betão, fazendo a humilhação suprema com o aprisionamento das águas do Rio Homem.
Visitar Vilarinho da Furna é sentir a aldeia e fazer o esforço de a imaginar viva e alegre. Visitar Vilarinho da Furna é sentar junto das suas ruínas e escutar o silêncio quase sepulcral.
E como entender o sentimento dos homens e mulheres de Vilarinho da Furna, abandonados por tudo e por todos? Aqui, recordei-me de um episódio vivido aquando da apresentação do romance "Rio Homem". Neste dia, e depois da apresentação no Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna, fez-se uma visita às ruínas da aldeia. Alguém levava um acordeão, porém a relutância e a tristeza do que deveria ser uma música Minhota a ecoar por entre as ruínas, estava espalmada nos olhos lacrimejantes dos tocadores, antigos habitantes da aldeia.
Depois do descanso, seguimos para S. João do Campo atravessando a imensa parece de betão que retém as águas do Rio Homem. Lembro-me das últimas horas de Rogélio Pardo (extraído de 'Rio Homem', de André Gago - Edições ASA, Dezembro de 2010.)...
"A água no talvegue começava já a subir consideravelmente. Rogelio não ia esperar mais. De olhos postos no chão, tentava a custo dominar a ansiedade que o paralisava. Sentiu de repente uma sucessão de pequenos golpes frios na cabeça, como picadas, a que logo parecia suceder a sensação de uma gota de sangue escorrendo pela pele do crânio. Passou a mão pela testa e olhou para cima: tinha começado a nevar, e da bruma que as luzes indistintas ofuscavam via surgir uma sucessão de pequenos flocos brancos que lhe acertavam no rosto. Essas pequenas carícias de frio ardente produziam nele uma comoção inesperada, como se o seu aparecimento fosse a manifestação de uma evidência que viria completar a jornada, selando os campos e paralisando a vida e tudo o que naquele vale se erguera. Antevia, no espesso manto branco que se avizinhava, a barragem arruinada e inútil, e o vermelho do seu sangue derramado sobre ele, no local onde a sua vida chegaria ao fim. As lágrimas começaram a correr-lhe, quentes, pelo rosto. Os seus olhos, que há muito não choravam, derramavam agora todas as tristezas e alegrias de que Rogelio era feito, destiladas num longo processo através das espirais de sangue e soros que lhe serpenteavam pelo corpo todo até alcançarem a cabeça envelhecida que, como a figura de proa de um navio fustigado, se arqueava para cima, para a neve que caía, esboçando um esgar impreciso, no qual um sorriso e um grito pareciam confundir-se.
Então, quase exausto desse êxtase, debruçou-se a custo sobre a primeira carga de dinamite e, apertando-a contra o peito, começou a caminhar, entrando com os pés na água gelada. Ouviu o rumorejar das águas que os seus passos incertos provocavam. No negro sem fundo do seu espelho reflectia-se o vapor irreal do nevoeiro e o clarão das lâmpadas descrevendo um arco na abóbada celeste que se elevava em direcção às profundezas insondáveis da noite. O frio mordia-lhe os tornozelos, entranhava-se na carne, enroscava-se nas pernas, instilava o seu veneno azulado, buscando inexoravelmente atingir o osso. Rogelio fechava os olhos e respirava em soluços, sentindo estalar as cordas do coração, apertando contra o peito a dinamite que esperara tantos anos por rebentar. No fundo desconhecido do Homem, aprisionado contra o betão que lhe serviria doravante de cárcere, espigavam-se rochas afiadas, restos de escombros que agora se submergiam e que o curso livre das águas jamais rolaria até converter nos seixos polidos sobre os quais muitas vezes Rogelio, de pés nus, caminhara, atravessando as águas transparentes e primaveris do rio com o qual partilhava a condição.
Os pés feriam-se nas profundezas aceradas e invisíveis, e por todo o corpo se espalhava um turpor gelado que lhe paralisava os músculos. Rogelio sentia que algo dentro de si se petrificava. Um ruído metálico parecia ressoar algures nas profundezas do seu corpo, como o do casco de um navio rasgando-se ao longo de uma barreira de recife. A boca de descarga estava à sua frente. Alguns metros mais e alcançá-la-ia. Teria ainda de se içar para dentro dela. Parou um instante para repousar. Inesperadamente, lembrou-se de Alda. Sorriu, pensou que no fundo o que estava a fazer fazia-o por ela. Fechou os olhos. Uma espécie de sono poroso invadiu-o, como um borrão negro espalhando-se no papel. Então a água começou a subir, de repente, dentro dele, invadindo-lhe o corpo, ascendendo ao longo do abdómen, inundando-lhe o peito, espalhando-se na floração dos pulmões. Survia-a pela boca, pelas narinas, numa derradeira inspiração amniótica. O rio entrava-lhe pelos ouvidos, liquefazendo-lhe os olhos, bailando-lhe nos cabelos, até encher e transbordar por completo toda a represa do seu corpo, acolhendo-o suavemente no seu seio."
Visitar Vilarinho da Furna é sentir a aldeia e fazer o esforço de a imaginar viva e alegre. Visitar Vilarinho da Furna é sentar junto das suas ruínas e escutar o silêncio quase sepulcral.
E como entender o sentimento dos homens e mulheres de Vilarinho da Furna, abandonados por tudo e por todos? Aqui, recordei-me de um episódio vivido aquando da apresentação do romance "Rio Homem". Neste dia, e depois da apresentação no Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna, fez-se uma visita às ruínas da aldeia. Alguém levava um acordeão, porém a relutância e a tristeza do que deveria ser uma música Minhota a ecoar por entre as ruínas, estava espalmada nos olhos lacrimejantes dos tocadores, antigos habitantes da aldeia.
Depois do descanso, seguimos para S. João do Campo atravessando a imensa parece de betão que retém as águas do Rio Homem. Lembro-me das últimas horas de Rogélio Pardo (extraído de 'Rio Homem', de André Gago - Edições ASA, Dezembro de 2010.)...
"A água no talvegue começava já a subir consideravelmente. Rogelio não ia esperar mais. De olhos postos no chão, tentava a custo dominar a ansiedade que o paralisava. Sentiu de repente uma sucessão de pequenos golpes frios na cabeça, como picadas, a que logo parecia suceder a sensação de uma gota de sangue escorrendo pela pele do crânio. Passou a mão pela testa e olhou para cima: tinha começado a nevar, e da bruma que as luzes indistintas ofuscavam via surgir uma sucessão de pequenos flocos brancos que lhe acertavam no rosto. Essas pequenas carícias de frio ardente produziam nele uma comoção inesperada, como se o seu aparecimento fosse a manifestação de uma evidência que viria completar a jornada, selando os campos e paralisando a vida e tudo o que naquele vale se erguera. Antevia, no espesso manto branco que se avizinhava, a barragem arruinada e inútil, e o vermelho do seu sangue derramado sobre ele, no local onde a sua vida chegaria ao fim. As lágrimas começaram a correr-lhe, quentes, pelo rosto. Os seus olhos, que há muito não choravam, derramavam agora todas as tristezas e alegrias de que Rogelio era feito, destiladas num longo processo através das espirais de sangue e soros que lhe serpenteavam pelo corpo todo até alcançarem a cabeça envelhecida que, como a figura de proa de um navio fustigado, se arqueava para cima, para a neve que caía, esboçando um esgar impreciso, no qual um sorriso e um grito pareciam confundir-se.
Então, quase exausto desse êxtase, debruçou-se a custo sobre a primeira carga de dinamite e, apertando-a contra o peito, começou a caminhar, entrando com os pés na água gelada. Ouviu o rumorejar das águas que os seus passos incertos provocavam. No negro sem fundo do seu espelho reflectia-se o vapor irreal do nevoeiro e o clarão das lâmpadas descrevendo um arco na abóbada celeste que se elevava em direcção às profundezas insondáveis da noite. O frio mordia-lhe os tornozelos, entranhava-se na carne, enroscava-se nas pernas, instilava o seu veneno azulado, buscando inexoravelmente atingir o osso. Rogelio fechava os olhos e respirava em soluços, sentindo estalar as cordas do coração, apertando contra o peito a dinamite que esperara tantos anos por rebentar. No fundo desconhecido do Homem, aprisionado contra o betão que lhe serviria doravante de cárcere, espigavam-se rochas afiadas, restos de escombros que agora se submergiam e que o curso livre das águas jamais rolaria até converter nos seixos polidos sobre os quais muitas vezes Rogelio, de pés nus, caminhara, atravessando as águas transparentes e primaveris do rio com o qual partilhava a condição.
Os pés feriam-se nas profundezas aceradas e invisíveis, e por todo o corpo se espalhava um turpor gelado que lhe paralisava os músculos. Rogelio sentia que algo dentro de si se petrificava. Um ruído metálico parecia ressoar algures nas profundezas do seu corpo, como o do casco de um navio rasgando-se ao longo de uma barreira de recife. A boca de descarga estava à sua frente. Alguns metros mais e alcançá-la-ia. Teria ainda de se içar para dentro dela. Parou um instante para repousar. Inesperadamente, lembrou-se de Alda. Sorriu, pensou que no fundo o que estava a fazer fazia-o por ela. Fechou os olhos. Uma espécie de sono poroso invadiu-o, como um borrão negro espalhando-se no papel. Então a água começou a subir, de repente, dentro dele, invadindo-lhe o corpo, ascendendo ao longo do abdómen, inundando-lhe o peito, espalhando-se na floração dos pulmões. Survia-a pela boca, pelas narinas, numa derradeira inspiração amniótica. O rio entrava-lhe pelos ouvidos, liquefazendo-lhe os olhos, bailando-lhe nos cabelos, até encher e transbordar por completo toda a represa do seu corpo, acolhendo-o suavemente no seu seio."
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domingo, 2 de setembro de 2018
Paisagens da Peneda-Gerês (CCLV) - Casa Florestal de Porto Chão
A caminho da Louriça, nas encostas da Serra Amarela e junto da antiga Pousada de Juventude do Lindoso, está o que resta da Casa Florestal de Porto Chão.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
sábado, 1 de setembro de 2018
Exposição "Recortes da minha serra"
Está patente no EcoMuseu de Barroso, em Montalegre, a exposição "Recortes da minha serra" com fotografias de Lília Jorge.
A não perder até 31 de Outubro de 2018.
Fotografias: EcoMuseu de Barroso
Paisagens da Peneda-Gerês (CCLIV) - Roca de Pias
A bela Roca de Pias nas terras de Fafião, Serra do Gerês.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
"Falta de aviso ou negligência? Continuam a perder-se pessoas no Gerês"
Este ano, morreram já três pessoas dentro do parque nacional e foram feitas 14 missões de busca e resgate, envolvendo 20 pessoas.
Notícia do Público.
Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
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